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sábado, 8 de novembro de 2025

APENAS UM CONTO - ECO NO ESPELHO

  


A Sra. Elara vivia na velha casa vitoriana herdada de sua tia-avó. O lugar era imenso, cheio de corredores escuros e o silêncio era tão espesso que parecia ter peso. Elara se mudou buscando paz, mas encontrou algo muito mais perturbador: a rotina implacável da repetição.

Tudo começou com pequenos desalinhamentos. O livro que ela deixava sobre a mesa de centro estava, ao acordar, de volta à estante, na mesma ordem alfabética exata em que o encontrara na chegada. As chaves do carro, que sempre guardava no gancho da entrada, apareciam no bolso do casaco que ela usara no dia anterior.

No início, ela racionalizou. Cansaço, esquecimento, a casa "assentando".

Mas a repetição escalou.

Uma terça-feira, ela estava no jardim podando as roseiras. O sol da tarde estava quente. Ela se virou por um instante para buscar a tesoura de poda no galpão e, ao retornar, as rosas que acabara de cortar estavam novamente no arbusto, os caules intactos, como se o tempo tivesse voltado cinco minutos. Ela piscou, sentindo a mão suada. O canivete de jardinagem ainda estava em sua mão, mas agora, sujo de terra de um corte que ela não havia feito.

Naquela noite, ela começou a registrar tudo. Diário, fotos, vídeos curtos. Ela tentou quebrar o ciclo: amarrou uma fita vermelha em seu pulso antes de dormir, para ter certeza de que acordaria na quarta-feira.

Na manhã seguinte, a fita estava em seu pulso. Mas a data no canto da tela da televisão marcava, inequivocamente, Terça-feira, 17 de Outubro.

O pânico instalou-se como uma geada fina. Ela estava presa. O mundo, ou pelo menos a pequena bolha que era sua casa, voltava ao estado de Terça-feira.

Ela passou o que pareciam ser semanas revivendo o mesmo dia. Ela tentava gritar, quebrar janelas, fugir, mas sempre acordava em sua cama, o cheiro do café que ela iria coar logo pairando no ar, e o relógio marcando 7:00 AM.

Um dia, em meio a uma de suas repetições, ela viu um vulto no espelho do corredor. Era ela mesma, mas... diferente. A Elara do espelho vestia roupas que ela não possuía, e havia uma expressão de terror resignado em seu rosto, como se estivesse presa há muito mais tempo do que ela.

"Quem é você?", sussurrou Elara para o reflexo.

A Elara do espelho levou um dedo aos lábios, num gesto de silêncio, e lentamente, arranhou a própria bochecha com a unha.

Elara recuou, horrorizada. No dia seguinte, quando a rotina recomeçou, ela correu para o espelho, ignorando o café fresco. O reflexo dela estava lá, normal, imperturbável. Mas, ao tocar seu próprio rosto, sentiu uma leve irritação na bochecha, como um arranhão que não deveria existir.

A verdade a atingiu como um golpe gelado. Ela não estava voltando no tempo. Ela estava repetindo o dia porque sua consciência estava sendo devolvida ao ponto inicial, enquanto o mundo continuava a avançar em algum lugar. E a outra Elara... a do espelho... era a versão dela que havia atingido um limite, a versão que estava tentando se comunicar através da única fenda possível: a imagem refletida.

No que ela calculou ser o centésimo ciclo de Terça-feira, Elara não tentou mais fugir. Ela se sentou em frente ao espelho e esperou.

Quando o reflexo apareceu com aquela expressão sofrida, Elara sorriu, um sorriso vazio e quase cruel. Ela não precisava mais do livro na estante ou da fita no pulso. Ela precisava de uma nova estratégia.

Com uma calma assustadora, Elara ergueu a mão e bateu com força na superfície do espelho, não para quebrá-lo, mas para fazer um som grave e ressonante.

"Eu sei que você está aí," ela disse ao reflexo, sua voz firme. "Você me mostrou o que acontece se eu ceder. Agora, me mostre como sair. Ou faremos deste dia um inferno permanente para nós duas."

O reflexo piscou. E, pela primeira vez em incontáveis "terças-feiras", o outro lado do vidro pareceu... hesitar.

A Elara do espelho levou a mão à borda da moldura, tateando o espaço, e seus lábios se moveram em um sussurro inaudível.

Elara se inclinou, ansiosa, mas atenta. A outra fez um gesto brusco, apontando para a testa de Elara.

"Você," o reflexo finalmente sibilou, sua voz ecoando do que parecia ser o interior da parede fria. "Você tem que ir para casa."

Confusa, Elara balançou a cabeça. "Mas eu estou em casa!"

"Não a sua. A verdadeira," respondeu o reflexo, e então ele começou a se desintegrar. Não o vidro, mas a imagem de Elara. As feições se esticaram e esmaeceram, transformando-se em borrões de luz e sombra, até que restou apenas uma névoa cinzenta no lugar do rosto.

Enquanto a névoa se aprofundava, Elara sentiu a casa tremer. Não era o tempo voltando, era a própria estrutura cedendo. Gritos abafados e sons distorcidos de vozes infantis e latidos distantes vieram da névoa.

"O que é isso?" Elara gritou, agarrando o espelho.

A névoa se condensou em um único ponto, brilhante e branco. Era a memória de uma placa de rua: Rua das Acácias, 45. Um endereço que ela não via há trinta anos.

"Volte. Lá. Nunca. Se. Mude," o eco final vibrou antes que o ponto branco explodisse em uma luz cegante.

Elara caiu para trás, protegendo os olhos. Quando a visão retornou, ela estava deitada no chão da sala, o espelho rachado de ponta a ponta. Não apenas uma rachadura, mas milhares de fragmentos imóveis, como uma teia de aranha que finalmente se rompeu.

E então, o som.

O barulho de um alarme de carro lá fora. Um som que ela nunca havia ouvido em todas as suas Terças-feiras de silêncio.

Elara tateou o bolso do casaco. As chaves estavam lá, mas em vez do peso do metal, sentiu algo diferente. Um pedaço de papel dobrado.

Ela o abriu com as mãos trêmulas. Era um recibo do dia 18 de Outubro — quarta-feira. E na parte de trás, uma caligrafia desesperada, claramente sua, mas de uma Elara de outro tempo:

"Não. Abra. A. Porta. Da. Casa. Vitoriana."

Elara olhou para o cômodo. O livro na estante não estava em ordem alfabética, mas jogado de lado. Havia uma mancha de café seco no tapete que ela definitivamente não havia limpado.

Ela não estava mais presa. O ciclo havia sido quebrado. Ela olhou para o espelho despedaçado, vendo seu reflexo dividido em mil pequenos pedaços, cada um parecendo sorrir em alívio.

outra Elara a havia libertado, pagando o preço de ficar para sempre naquele eco. A casa de Elara era, de fato, a prisão do reflexo.

Elara se levantou. Ela olhou para a porta de entrada, sentindo uma aversão física ao pesado mogno. A Terça-feira tinha acabado. A Quarta-feira havia chegado, e com ela, a realidade de que ela estava em um lugar que a queria para si.

Ela não pegou o casaco nem as chaves. Ela simplesmente abriu a porta e saiu. O ar frio da manhã a atingiu. Ela nunca mais olhou para trás. A casa vitoriana ficou para trás, silenciosa, fechada, com seu segredo e seu espelho estilhaçado guardando para sempre a versão de Elara que não conseguiu escapar. O Eco no Espelho se calara para sempre.

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