Estou novamente sozinho no silencio da escuridão.Enquanto durmo,nos meus sonhos,uma visão suavemente sinistra é plantada em minha mente. Caminho por ruas estreitas e escuras. No final da rua apenas uma única e fraca luz. Meus passos me levam até ela. A medida que me aproximo da luz ela vai ficando mais forte ofuscando meus olhos. Mesmo com a força da luz consigo ver e perceber pessoas andando de um lado para o outro. Elas não tem rosto mas conversam entre si sem emitir nenhum tipo de som. Elas passam por mim como se eu não estivesse ali. Tento chama-las mas elas não escutam. O som do silencio é perturbador. De repente elas parecem escrever freneticamente. Sinto meu sonho agitado. Tento pegar os papeis para ler mas minhas mão não alcançam os escritos. As pessoas colocam as folhas no chão Ajoelham-se e formam pequenos círculos. A luz se apaga tudo desaparece e eu me vejo novamente sozinho no silencio da escuridão.
É uma noite fria mas o céu é um mar de estrelas brilhantes que agora iluminam uma outra direção um outro caminho uma outra rua. Atrás de mim silencio e escuridão. O ar é extremamente pesado. Sinto meu corpo tenso. O medo me faz ficar ainda mais alerta. Não há absolutamente nada .Apenas uma rua iluminada pelas estrelas.
A medida que vou caminhando as estrelas atrás de mim vão se apagando. Sinto minha pele gelada. Penso em correr mas o frio e o medo são tão intensos que meu corpo parece não corresponder. A rua é longa. Tudo está morto ao meu redor. Dentro do meu peito uma angústia absurda. Sinto as lágrimas escorrendo pelo meu rosto frio.
Chove. Não uma chuva refrescante. Uma chuva amarga. Uma chuva pesada. Uma chuva que trás ainda mais dor para o meu corpo. Não há onde se abrigar. Não há mais estrelas para iluminar a rua.
Assim como as estrelas que se apagam com o caminhar a chuva cessa rápida e repentinamente. Agora mais uma vez, no meio da escuridão, assim como no começo, resta apenas uma única luz no final da rua.
Lá estão aquelas pessoas outra vez. Estão enfileiradas a beira da rua formando um corredor aparentemente para eu passar. Mãos dadas, cabeças baixas e uma folha de papel no pé de cada uma delas. Ao final delas a única luz.
Tudo é um caos. Ao fundo uma única luz e eu parado diante daquela fileira de seres estranhos. Tudo que eu queria era poder sair dali. Sentia meu coração bater descompassado. Não sabia se a luz era realmente a saída mas não havia como voltar. Atrás de mim não havia simplesmente nada.
Eu não queria morrer ali sozinho. Eu não queria morrer ali abandonado. Sentia minha alma quebrada. Sentia meu coração cansado. Eu precisava fazer aquilo parar. Eu precisava acordar.
Subitamente, aqueles seres estranhos, um a um foram soltando as mãos e levantando a cabeça. Os papeis foram recolhidos e entregues ao último, aquele, mais próximo da luz. Se eu quisesse começar a ter alguma resposta para aquilo tudo eu teria que pega-los. Para pega-los eu precisaria caminhar em direção á luz. Para caminhar em direção á luz eu teria que passar pelo corredor feito por eles.
De repente tudo ao meu redor começou a ruir. A rua não era mais terra firme. Tentei
olhar ao meu redor mas não conseguia me virar. Minha única visão era a
luz e os seres estranhos. A rua foi
ficando cada vez mais estreita. Eu precisava sair dali. Eu precisava acordar.
Senti meu pé falsear e um nada se abrir atrás de mim. O ser próximo da luz
levantou os braços como me chamando. Minha mente gritava vá, corra. Senti meu
corpo ganhar forças e me impulsionar para frente. Corri o mais rápido que pude
e á medida que ia passando pelos estranhos seres era como se eles fossem se
incorporando ao último ser. Senti meus pés saindo do chão e então foi como se
uma energia absurda me jogasse de encontro á luz e o último homem com os papeis nas mãos se incorporou ao meu corpo e entrou na luz comigo. A última
coisa que me lembro, foram os papeis que
estavam nas mãos do último ser voando espalhando e naturalmente não passando
pela luz.
Outra vez o mesmo sonho. Outra vez os papeis voando. Outra
vez seres estranhos que falam mas não se ouve as vozes. Outra vez seres
estranhos que escrevem mas não se consegue ler os escritos. Outra vez acordando extremamente sobressaltado. O corpo frio e dolorido. Dor, como se meu corpo estivesse totalmente
perfurado por espinhos. A cabeça pesada. A alma envenenada. Meu coração é um
inverno sem fim.
Mais um dia com a alma aflita. Outra noite que chega tão
rápida quanto o dia se vai. Temor do sono. Temor de um novo sonho. Minhas
memorias são como sombras que não conseguem encontrar o caminho na escuridão.
Quero a luz da manhã. Não quero cair mais uma vez no nada.
Meus olhos precisam de clara esperança e não da escuridão amarga. Preciso
apagar esse fogo de raiva que existe dentro de mim. Não posso mais correr e me
esconder.
Sentado em um canto do quarto vejo pela janela a noite
entrar. Sinto o medo tomando meu corpo. Sinto minha alma desmoronando. É uma
noite de céu escuro sem estrelas , sem lua , sem ventos, sem sons . Lá fora
apenas silencio.
O insano me domina. Corro. Só penso em encontrar um lugar
para me abrigar. Outra vez me sinto
assombrado. Não há nenhuma luz. Corro sem direção.
Paro. Sinto me cercado pelas criaturas. Estão agitadas
circulando em torno de mim. Soltam sons estranhos. Parecem querer me tocar.
Cada vez mais próximas. Grito. Um grito que sai do fundo da minha alma. Grito
que me peguem. Grito que estou vivo. Elas
estão literalmente coladas em mim. Posso ver seus olhos. Olhos de morte. Olhos de tristeza, rancor, ódio, amargura.
Sinto meu corpo machucado, sangrando, querendo curvar-se. Quero respirar, me sentir livre. Parecem querer beber minha alma. Parecem querer me sugar por inteiro. No céu há uma lua azul em ascensão.
Subitamente a luz fria e sobrenatural da lua azul em ascensão se intensificou banhando o cenário de escuridão. O círculo de criaturas estancou. Seus olhos antes fervilhando de rancor e ódio pareceram congelar atingidos pela tonalidade inesperada. A lua azul não era uma luz de calor mas de verdade fria. Ela não oferecia abrigo mas expunha o que estava oculto.O insano que me dominava recuou por um instante.O medo foi substituído por uma clareza cortante. O corpo que antes sangrava e ansiava por curvar-se sentiu um ímpeto de resistência.
Parei de correr fixando os olhos nas criaturas. A dor no meu corpo parecia ser a única coisa real. Meu desespero se transformou em uma força primal. Eu precisava fazer aquilo parar.
O grito que começou com um pedido de socorro tornou-se um rugido de existência. Um som que saiu do fundo de minha alma perfurando o silêncio que havia me perturbado durante todo o pesadelo e a vigília.
- EU ESTOU VIVO !
O grito ecoou . As criaturas que estavam literalmente coladas em mim foram forçadas a recuar por uma força invisível. Não uma força física. Uma força de vontade. Uma manifestação da minha alma quebrada e cansada.dos espinhos da dor e do fogo da raiva que eu carregava. O grito era o choque que minha alma necessitava.
A medida que as criaturas recuavam percebi algo estranho. O ar agitado da lua azul trouxe o farfalhar de um som familiar.
Aqueles mesmos escritos que voaram e não passaram pela luz no final do sonho agora eram trazidos pelo vento. Eram centenas de fragmentos, cada um contendo a dor, a tristeza, o ódio e a amargura que eu via no olhar das criaturas. Não eram mensagens secretas. Eram minhas próprias memórias.
As criaturas não queriam beber minha alma. Queriam que eu recolhesse o que havia espalhado.
Os fragmentos batiam em meu peito. Batiam em minhas mãos. Eles vinham até mim . Neles estavam escrito medo, abandono silêncio. Minha alma minha dor meu coração . Todos escritos em pequenos pedaços de papel.
Todos revelando minha profunda tristeza e angústia.
No último papel estava escrito VOLTE.
Olhei para rua escura. Não havia luz no final. Não havia estrelas no céu. O caminho que havia percorrido não era mais de terra firme. Era o nada. O vazio onde sempre temi cair.
As criaturas desapareceram. Eu estava ali sozinho com os papeis nas mãos sob a luz da lua azul.
Não havia como voltar. O caminho a frente era apenas um círculo de tormentos. A única opção era aceitar o NADA. Fechei os olhos e ao invés de lutar ou correr dei um passo para trás em direção ao abismo aberto.
Quando meus pés tocaram o NADA não houve queda mas sim um silêncio final e acolhedor. O vácuo não era o fim. Era uma interrupção.
Abri os olhos
Estava deitado em minha cama. A luz da manhã que tanto ansiava entrava pela janela do quarto. Meu corpo não sentia mais a dor perfurante dos espinhos. A tensão havia cedido. O inverno em meu peito recuava com o calor do sol nascente.
Um ar fresco entrava pelo quarto. As sombras do sonho se dissipavam. A raiva e o medo agora eram um peso distante.
No entanto em minhas mãos amarrotado e suado havia um único pedaço de papel.
Desdobrei o papel e nele estava escrito com minha própria caligrafia a palavra Cléo ainda borrada pela umidade da vigília.
Cléo aquela que significa glória. Aquela que dá clareza.
Então finalmente pude perceber que toda aquela jornada dentro da escuridão com seres que escreviam freneticamente mas não podiam ser lidos e vozes que falam sem serem ouvidas era a busca pelo sentido de toda minha angústia.
Cléo não era uma pessoa. Não era a luz no final da rua. Era a clareza da minha alma. Eram minhas memórias. Memórias como sombras que não me deixavam enxergar dentro da escuridão.
Eu era a única pessoa capaz de dar voz aos escritos silenciosos. Ao dar o passo final em direção ao nada eu havia finalmente recolhido e lido o único fragmento da minha verdade que não se perdeu no voo dos papeis : A busca por CLAREZA
O papel não era o fim do caminho mas o primeiro passo em uma nova rua .Uma rua iluminada não só por estrelas ou por uma lua azul . Iluminada pela verdade que acabara de escrever para mim mesmo.
O ciclo estava quebrado.
Ricardo Vieira
Cléo Lumina

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