https://app.logomaster.ai/pt/share/fN7Uuzjj

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

APENAS UM CONTO - O SINAL NO SILÊNCIO Pt.01

 


A cidade já tinha se dobrado ao cobertor pesado da madrugada, e a única coisa que quebrava o silêncio no apartamento de Eduardo era o zumbido fraco da geladeira. Ele estava na sala, encarando a tela de um laptop apagado, incapaz de dormir.

O motivo era um único e-mail que ele recebeu às 23h34, assinado por um remetente desconhecido: “Eu sei o que você fez na Quarta-feira, 04/11. É hora de pagar.”


Quarta-feira, 04 de Novembro. Eduardo tentou vasculhar a memória. Um compromisso? Um erro? Ele não conseguia se lembrar de nada de extraordinário. O pânico, porém, era um frio real que subia por sua espinha.


De repente, o zumbido da geladeira parou. Silêncio absoluto.


Ele prendeu a respiração, o coração martelando no peito. Foi então que ele ouviu. Não veio de fora, nem de dentro do apartamento. Veio da parede à sua esquerda, a que dividia sua sala do apartamento vizinho, que ele sabia estar desocupado há semanas.

Era um som sutil, repetitivo, como um toque leve, rítmico.


Tap. Tap-tap. Tap.


Três batidas. Um padrão.


Eduardo levantou-se da cadeira, movendo-se lentamente em direção à parede, como se o chão fosse feito de vidro. Colocou o ouvido junto à superfície fria.


O som parou.


Ele ficou parado por um minuto, talvez dois, o silêncio voltando a engolir tudo. Ele estava prestes a se afastar, atribuindo o som a um cano velho ou à própria tensão, quando o e-mail acendeu uma luz fria em sua mente.


Quarta-feira, 04/11.


Ele voltou ao laptop e procurou na lixeira. Lá estava. Uma conversa apagada com o porteiro do seu prédio, agendando uma visita de reparo para o seu exaustor. A data? 04/11. O reparo envolvia a remoção de uma pequena seção do duto de ventilação... que passava pela parede divisória.


Ele se afastou da parede, os olhos arregalados. Ele tinha certeza de que o vizinho daquele apartamento se mudou semanas depois do dia 04 de Novembro.


Tap. Tap-tap. Tap. veio de novo. Mais alto desta vez.


Eduardo recuou, tropeçando na poltrona. Ele olhou para a parede com horror, percebendo o que o som realmente significava. Não era um código. Não era um fantasma.


Era alguém tentando sair.


E se alguém estava batendo na parede de dentro do apartamento vizinho, e o apartamento vizinho estava vazio, significava que a pessoa estava presa... no espaço entre as paredes. Onde o duto de ventilação passava.


Tap. Tap-tap. Tap. A parede estremeceu levemente.


De repente, as batidas se tornaram um frenesi desesperado e rítmico, acompanhadas por um som úmido e abafado.


E então, o silêncio. Um silêncio que, desta vez, parecia definitivo.


Eduardo não se moveu. Ele não conseguiu. O único som agora era o zumbido fraco da geladeira, que recomeçou, e o sussurro da sua própria respiração.


Ele sabia que, quem quer que estivesse ali, não tinha conseguido sair. E que a pessoa do e-mail de 23h34 sabia exatamente quem era a pessoa na parede. E por que ela estava lá.


Afinal, a remoção da seção do duto foi para "facilitar o acesso". A voz do porteiro, ao telefone, havia sido vaga sobre o que realmente precisava ser acessado. E agora, olhando para a parede, ele se lembrou do outro e-mail, de dias antes do dia 04 de Novembro: "Sua taxa de condomínio será reduzida em 50% por 3 meses se você permitir uma pequena obra de "emergência" que exige acesso pela sua unidade."


Um trabalho de emergência. Acesso pela sua unidade. Um corpo preso entre as paredes. E um remetente anônimo que sabia de tudo.


Eduardo sentiu um arrepio ainda mais profundo. Não era sobre ele. Era sobre o que ele permitiu. Ele era um cúmplice silencioso, e a conta estava apenas começando a chegar. O tap-tap-tap silenciado nas paredes agora era um eco constante em sua mente. Ele olhou para o reflexo no laptop. Seus próprios olhos pareciam esconder um segredo sujo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário