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terça-feira, 18 de novembro de 2025

APENAS UM CONTO - O SINAL DO SILÊNCIO Pt.02

 


A luz do amanhecer quebrou a escuridão do apartamento, mas não dissipou a névoa de terror que envolvia Eduardo. Ele não havia dormido. A imagem das rachaduras na parede, o som abafado, o e-mail anônimo – tudo se misturava em um ciclo interminável de culpa e medo.

O porteiro. Ele tinha que falar com o porteiro. Como pôde ser tão ingênuo? Uma redução de condomínio por uma "pequena obra de emergência" que exigia acesso pela sua unidade. A armadilha era tão óbvia agora, mas na época, a tentação da economia havia nublado seu julgamento.


Ele pegou o telefone, os dedos tremendo enquanto discava o número da portaria. O coração saltava em seu peito, uma batida descompassada.


"Portaria, bom dia." A voz de Seu Jorge, o porteiro do turno da manhã, soou mais calma e rotineira do que Eduardo esperava, quase um alívio.


"Seu Jorge, é o Eduardo, do 702", ele conseguiu dizer, sua voz soando rouca.


"Ah, bom dia, senhor Eduardo! Tudo bem?"


"Não, Seu Jorge, não está. Eu preciso saber sobre aquela 'obra de emergência' no meu apartamento, no dia 04 de novembro. O que exatamente foi feito?" Eduardo tentou manter a voz firme, mas sentiu um tremor incontrolável.


Houve um breve silêncio do outro lado, um silêncio que parecia se estender por uma eternidade.


"Obra de emergência, senhor? No seu apartamento? Não me recordo de nada disso no dia 04 de novembro. Todas as ordens de serviço e entradas de prestadores são registradas. 


Deixe-me verificar o sistema."


Eduardo esperou, a respiração presa na garganta. Ele podia ouvir o teclado sendo digitado.


"Não há nenhum registro, senhor Eduardo. Nem para o seu apartamento, nem para a unidade vizinha. O único registro para o 702 em novembro foi a entrega de uma encomenda no dia 15."


Isso não fazia sentido. Ele tinha o e-mail do condomínio, a conversa com o porteiro anterior, que ele agora se lembrava ter sido o turno da noite. O homem que o atendeu na ligação para agendar o reparo do exaustor, que ele pensava ser o porteiro.


"Mas... eu conversei com alguém da portaria! Eu agendei! E recebi um e-mail do condomínio oferecendo a redução!" O desespero na voz de Eduardo era evidente.


"Senhor Eduardo, o único e-mail oficial sobre redução de condomínio que enviamos este ano foi referente à instalação de novas câmeras de segurança. Não houve nenhuma oferta relacionada a obras internas."


A linha pareceu esfriar. A voz de Seu Jorge, agora mais cautelosa, disse: "O senhor tem certeza de que se lembra corretamente, ou que o e-mail era realmente do nosso condomínio?"


Eduardo desligou. A confusão se transformou em um novo tipo de horror. Se não foi o condomínio, e se não foi o porteiro, então quem ele havia contatado? Quem sabia sobre a "obra de emergência" e por que ele, Eduardo, foi o alvo?


O e-mail anônimo voltou à sua mente: “Eu sei o que você fez na Quarta-feira, 04/11. É hora de pagar.”


Não era apenas sobre o corpo na parede. Era sobre a teia de mentiras, e ele estava preso no centro dela. Alguém o manipulou, o fez ser cúmplice de algo terrível, e agora estava colhendo os frutos do seu medo e da sua ganância.


Ele olhou para a parede, onde a sombra de algo humano parecia ainda mais forte sob a luz da manhã. As rachaduras pareciam se aprofundar, como veias de um corpo inerte.


E então, o celular tocou. Um número desconhecido.


Eduardo hesitou, mas a curiosidade mórbida o impulsionou a atender.


"Alô?"


Uma voz eletrônica, distorcida e fria, soou do outro lado. "Ainda se perguntando, Eduardo? Achou que seria tão fácil assim se livrar das consequências?"


O sangue de Eduardo gelou. "Quem é você? O que você quer?"


"Eu sou a testemunha, Eduardo. A testemunha do que você permitiu. E o que eu quero... é que você se lembre. Que você não durma. Que você sinta cada batida. Cada... tap-tap-tap."


A ligação foi cortada, deixando Eduardo sozinho com o eco das palavras e a visão da parede.


Ele não estava apenas pagando por ter sido cúmplice. Estava pagando por ter sido o instrumento. E quem estava do outro lado da linha, e talvez, do outro lado da parede, estava desfrutando de cada momento do seu tormento.


Ele pegou as chaves do carro. Tinha que sair dali, tinha que descobrir a verdade, antes que ele mesmo se tornasse o próximo segredo enterrado entre as paredes.

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