Eduardo desceu do 702 como um fugitivo. A chave na ignição do seu carro parecia um portal para a liberdade, mas a verdade era que ele estava apenas trocando uma cela por outra. Ele acelerou pelas ruas da cidade, o trânsito da hora do almoço parecendo um ruído distante e irrelevante.
Sua mente voltava incessantemente ao Porteiro da Noite. O homem que ele pensava ter agendado a "obra". Seu Jorge, o porteiro do dia, havia sido claro: não havia registro. O falso porteiro, o e-mail fraudulento, a taxa de condomínio reduzida — tudo era uma isca para fazê-lo abrir a porta e permitir o acesso ao espaço entre as paredes.
Ele parou o carro, ofegante, em frente a um café que costumava frequentar, tentando encontrar algum simulacro de normalidade. Mas a luz clara da tarde apenas tornava seu medo mais tangível.
Ele tirou o celular do bolso. Precisava identificar a pessoa na parede. E o único elo era o homem que o havia manipulado.
Eduardo voltou à lixeira de e-mails, vasculhando a fundo. Ele não procurava mais pelo e-mail do condomínio, mas sim por qualquer comunicação anterior. Foi então que ele encontrou. Um e-mail de "Boas-vindas ao Condomínio", enviado duas semanas antes da "obra", quando ele havia se mudado. No rodapé havia um nome e um número de celular do Síndico anterior, agora aposentado.
A ideia era desesperada, mas a única que ele tinha. O síndico antigo talvez pudesse identificar o porteiro da noite que trabalhava em novembro.
Ele ligou. Demorou cinco toques, mas uma voz grave e cansada atendeu: "Alô?"
"Eu sou Eduardo, do 702. Eu acabei de me mudar, e estou com um problema urgente. Eu precisava de uma informação sobre um dos porteiros que trabalhava no turno da noite em novembro, no dia 04. O senhor se lembra de alguém?"
O homem tossiu no outro lado da linha. "Dia 04 de novembro... no turno da noite? Ah, sim. Eu me lembro dele. O nome dele era Antônio. Mas ele não é mais porteiro. Ele se demitiu na manhã seguinte, dia 05, sem dar satisfação. Desapareceu no ar."
Um calafrio percorreu Eduardo. Antônio, o homem que ele pensava ser um porteiro comum, havia facilitado o acesso, recebido algo em troca e sumido. Ele era a primeira peça, o peão descartável.
"O senhor sabe onde eu poderia encontrá-lo? Um endereço, um contato?"
"Não, meu jovem. Quando ele foi embora, levou tudo. Até a bicicleta. Mas, espere... ele era bem próximo do zelador da época. O Cláudio. Talvez Cláudio saiba de algo. Ele ainda mora no prédio, na unidade de apoio."
Eduardo agradeceu e desligou. Cláudio, o zelador. Ele estava voltando para a fonte do problema, o próprio prédio.
Ele fez o retorno. Ao estacionar na rua lateral, longe do campo de visão da portaria, ele discou o número do zelador, que ele encontrou na lista de contatos emergenciais do condomínio.
"Cláudio? É o Eduardo, do 702. Preciso de um minuto com você, é sobre o Antônio."
"O Antônio? Por que o senhor quer saber dele? Já faz tempo..." a voz de Cláudio estava tensa.
"Eu preciso saber, Cláudio. É uma questão de vida ou morte. Por favor, podemos nos encontrar? Agora. Sem que ninguém da portaria veja."
Cláudio hesitou, depois sussurrou: "Tudo bem. Encontre-me na casa de máquinas, no subsolo. Em cinco minutos. E venha sozinho. Use a escada de serviço."
Eduardo desligou, o medo se misturando à adrenalina. Ele não tinha ideia do que esperava no subsolo, mas o telefone com a voz distorcida o havia deixado claro: ele precisava agir.
Ele desceu as escadas de serviço, o cheiro de mofo e desinfetante inundando seus sentidos.
O subsolo era escuro e labiríntico. Ele seguiu o som fraco de bombas e ventilação até encontrar uma porta de metal com uma placa desbotada: "Casa de Máquinas".
Cláudio estava lá, um homem pequeno, curvado, com as mãos sujas de graxa. Ele não parecia um cúmplice de assassinato.
"Cláudio, me diga a verdade. O que aconteceu no dia 04 de novembro? Quem era a pessoa na parede?"
Cláudio olhou para ele, os olhos cheios de pavor.
"Eu não sei o nome... mas eu sei quem o Antônio... ajudou a prender lá. Era o ex-vizinho do apartamento 701. O que sumiu sem deixar rastro. Aquele que havia ameaçado o síndico por causa de uma disputa de vaga de garagem."
Eduardo cambaleou. O vizinho. O apartamento vazio. Ele agora tinha o motivo: vingança do síndico. E ele, Eduardo, foi a ferramenta perfeita.
"Quem fez isso, Cláudio? Quem deu a ordem?"
Antes que Cláudio pudesse responder, a luz da casa de máquinas piscou e se apagou. O silêncio voltou, quebrado apenas pelo lento gotejar de água em algum lugar próximo.
Então, veio um som. Não o tap-tap-tap da parede, mas um barulho de passos lentos e pesados, vindo de algum lugar atrás das máquinas.
Cláudio soltou um grito abafado e começou a correr na escuridão.
Eduardo ficou paralisado. Ele não estava mais no conforto de seu apartamento. Ele estava no subsolo, no escuro, com um assassino.
A voz eletrônica, que ele ouvira ao telefone, ressoou nas paredes metálicas: "Você não devia ter voltado para casa, Eduardo. E você nunca, nunca deveria ter perguntado sobre o Cláudio."

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