A voz eletrônica, que ele ouvira ao telefone, ressoou nas paredes metálicas: "Você não devia ter voltado para casa, Eduardo. E você nunca, nunca deveria ter perguntado sobre o Cláudio."
O medo de Eduardo havia atingido um limite, e se transformou em uma raiva fria. Ele não era um criminoso, era uma vítima manipulada. Ele não fugiria mais.
"Apareça!", gritou Eduardo para a escuridão. Sua voz reverberou, parecendo ridícula e fraca contra o metal e o silêncio. "O que você quer? Me diga! Por que eu?"
Os passos lentos e pesados cessaram. Eduardo conseguia ouvir a respiração de alguém, mas não via nada. A escuridão era absoluta, densa, cheia de cheiro de óleo e ferrugem.
"Eu quero justiça," respondeu a voz, agora parecendo vir de um alto-falante oculto, próximo aos dutos de ventilação. "Seu vizinho, o do 701, foi assassinado e emparedado na Quarta-feira, 04/11. Ele não merecia isso. E você... você permitiu que acontecesse. Sua ganância selou o destino dele."
"Eu não sabia!", Eduardo argumentou, o suor escorrendo pelo rosto. "Eu pensei que era uma obra legítima! Eu fui enganado!"
"Você assinou o papel que autorizava a 'obra'. Você abriu a porta para que o zelador, Cláudio, e o porteiro, Antônio, fizessem o serviço sujo. Você recebeu o seu preço: o silêncio e a redução na taxa. Vocês são todos cúmplices."
Um clique agudo ecoou, e uma luz muito fraca, como a de um celular coberto por uma fita, acendeu no centro da sala, jogando sombras longas e distorcidas sobre as máquinas.
Atrás da luz, estava uma figura encapuzada, usando roupas escuras. Ela segurava algo comprido e fino, que Eduardo não conseguia identificar.
"Quem é você?", perguntou Eduardo, apertando os punhos.
A figura não respondeu com palavras. Ela deu um passo à frente. A luz fraca iluminou momentaneamente a mão da figura. Nela, havia um dispositivo eletrônico pequeno, que parecia ser o gerador da voz distorcida.
A figura levantou o braço, e o objeto longo e fino na mão se revelou. Não era uma arma; era um pedaço de ferro pontiagudo, como uma barra de demolição fina.
"Cláudio fugiu, mas você não vai," disse a voz robótica. "Se você não pagar, quem vai? Você vai se juntar ao seu vizinho, Eduardo. O espaço entre as paredes é acolhedor, mas apertado."
A figura começou a se mover rapidamente, mas silenciosamente, contornando uma enorme bomba de água.
Eduardo não pensou. A escuridão era sua única arma. Ele se atirou para o lado, para trás de uma pilha de canos, esperando o ataque.
O objeto de metal bateu na lateral da bomba com um estrondo ensurdecedor. O impacto fez a bomba vibrar, e a vibração soltou uma nuvem de poeira e teias de aranha do teto.
A distração era tudo de que ele precisava. Eduardo, com o coração batendo forte, procurou desesperadamente por uma saída ou uma arma improvisada. Sua mão encontrou o que parecia ser um alicate velho e pesado.
A figura avançou novamente, a luz fraca dançando nas paredes.
"Acabou o jogo, Eduardo. Não há mais como culpar o síndico ou os peões. A responsabilidade é sua."
Quando a figura estava a menos de dois metros, pronta para o golpe final, Eduardo se jogou do chão e arremessou o alicate com toda a força, mirando a luz.
O alicate atingiu o aparelho na mão da figura com um clack satisfatório. A luz apagou, e o som da voz distorcida parou bruscamente.
A figura soltou um grunhido, deixando cair o bastão metálico, que fez um barulho seco ao atingir o chão de concreto.
Mas o que veio a seguir chocou Eduardo. A figura não avançou para lutar. Em vez disso, ela se virou e correu para a escuridão.
Eduardo ficou parado, ofegante. Por que o agressor fugiria tão facilmente? O golpe não parecia ter sido forte o suficiente para incapacitá-lo.
Ele esperou, tenso, até que o silêncio do subsolo voltasse a ser quebrado apenas pelo gotejar distante.
Eduardo tateou na parede, encontrando o interruptor de luz. Ele hesitou, mas a necessidade de ver era maior que o medo. Clicou.
As lâmpadas fluorescentes da Casa de Máquinas piscaram ruidosamente antes de se acenderem, revelando o ambiente sujo e cheio de máquinas.
O bastão de metal estava no chão. E, ao lado dele, não havia nenhuma pessoa, mas sim algo que a figura tinha deixado cair no susto: um crachá de identificação plastificado, com a foto e o nome do síndico atual do condomínio.
Não era o ex-síndico. Era o atual. O homem que deveria garantir a segurança de todos.
Eduardo pegou o crachá, sentindo-o queimar na palma da mão. A pessoa que o perseguiu não era apenas a que planejou o crime; era a que agora administrava o prédio onde ele morava e onde o corpo estava. E ela fugiu porque sabia que seria facilmente identificada sob a luz.
O Tap. Tap-tap. Tap. que ele ouviu na madrugada não era apenas um sinal de socorro. Era um aviso. Um segredo que agora ameaçava consumir a todos no prédio. E Eduardo estava de volta ao 702, agora não mais como morador, mas como o único com a prova do crime

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